“Deixe meu povo ir!”

Já disseram que a história não se repete a não ser como farsa, mas é evidente que certos traços permanecem inalterados na mentalidade e corações de uma nação, impressas na longa duração de um tempo pretérito que ainda surge no presente, através da escravidão. A história de uma família de homens e mulheres negras como a de tantas outras é assim. É o que mostra a reportagem publicada hoje na folha de São Paulo.

Nela, nenhum dos quatro filhos conseguiu completar os estudos do ensino médio. Nasceram e cresceram na roça e começaram a trabalhar ainda crianças. Um dos filhos, de 26 anos, deixou a escola na sexta série, por volta dos 12 anos. De lá pra cá, trabalha no corte da cana, e às vezes colhendo café. Esta sina teve fim quando em agosto de 2018, foi resgatado junto com mais 18 trabalhadores em situação análoga à de escravo em uma fazenda de Minas Gerais.

Contra fatos não há argumentos, os negros continuam, mesmo após 131 anos depois da lei áurea, ainda como escravos, vivendo à margem da sociedade, pois,

“a cada cinco trabalhadores resgatados em situação análoga à escravidão entre 2016 e 2018, quatro são negros. Pretos e pardos representam 82% dos 2.400 trabalhadores que receberam seguro-desemprego após resgate”.

Quando comecei a estudar a escravidão, instituição nefasta que escravizou e matou milhares de africanos e afro-brasileiros, diziam que, no presente, não havia mais escravidão como antes, e que agora se tratava de uma escravidão moderna, portanto diferente do que ocorria no passado, em que um ser humano era rebaixado ao status social de “coisa” pertencente a um outro homem, e por tanto, um não humano.


Imagem: Stefano Wrobleski/Repórter Brasil

Porém, tais dados têm mostrado que, se o nome mudou, as caracteristicas são as mesmas: pessoas vivendo de forma desumana e mais, em sua maioria composta de pessoas pretas e pardas (82%), cujos os seus antepassados foram escravizados e que agora davam continuidade a esta sina, desempenhando o mesmo papel nesta sociedade excludente e racista, preconceituosa e brasileira.

Deste total de negros resgatados, 62% eram trabalhadores rurais, florestais e da pesca; 29% atuavam na indústria. Isto não seria novidade, pois O estudo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça”, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgado no último dia 12, mostrou que a população negra representa 64% dos desempregados e 66% dos subutilizados, além de ganhar menos do que os brancos. A desigualdade mantida durante a escravidão, se aprofundou transformando-se em um abismo social quase intransponível.

A matéria publicada hoje me chama a atenção para o fato do mecanismo que perpetua esta escravidão: o não acesso a educação. Os dados revelam que a maioria dos resgatados, assim como o jovem retratado na matéria, não concluíram o ensino fundamental: 56%. Entre o total havia ainda 14% de analfabetos. Fica claro que sem acesso a educação, a perpetuação deste sistema odioso permanecerá inalterado.

Por isto, nossa luta hoje, dia 20/11/19, dia da consciência negra, é não apenas refletir, mas lutar para que possamos ter as mesmas oportunidades, a fim de que não sejamos mais escravos de niguém.

O clamor de Moisés ainda pode ser ouvido neste Brasil/Egito: Liberte o nosso povo, nós não seremos escravizados por mais ninguém.

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De <https://noticias.uol.com.br/cotidiano  (Exibição da Web)

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