1º de Maio de 1968. 50 anos das manifestações que abalaram a França

Em maio de 1968, estudantes tomaram as ruas de Paris e com palavras de ordem formam Barricadas impedindo  o trânsito daí passaram a ser, segundo alguns dados, cerca 600 mil estudantes. Trabalhadores recusam-se a trabalhar e cruzam os braços, as imagens se espalham pelo mundo enquanto comerciantes assustados abaixam as portas de seus estabelecimentos.

A greve geral da França tomava fortes contornos,  na garganta dos estudantes ouve-se palavras de ordem e nas mãos pedras paus.  200 mil pessoas vão para as ruas e dezenas de carros são incendiados.

Carros usados como barricadas durante os protestos

O que começou com os estudantes ganhou o reforço dos Feministas, operários, agricultores que embora tivessem reivindicações diferentes somaram-se ao movimento engrossando o caldeirão em ebulição, muito antes da World Wide Web (Internet) virar a febre e o principal meio de propagação de informação.  Você pode até não gostar de nenhum destes movimentos, mas se você faz parte do andar de baixo, ou seja, é um trabalhador, creia: a maior parte dos direitos que você goza são advindos do movimento de 68 que pressionou os patrões por melhores condições de trabalho. As faixas que diziam “é Proibido Proibir”, “O poder está nas ruas” e “A imaginação no poder” eram os slogans da moda que se propagaram pelo mundo dando o clima de revolta contra a ordem vigente.

 

Mas na verdade, no bojo daquelas questões, as reivindicações dos trabalhadores era apenas mais uma das vozes barulhentas das ruas. Milhares de trabalhadores foram as ruas e , segundo o historiador Eric Hobsbawm teria sido “a maior greve geral da … com o qual revolucionários sonhavam desde a Revolução Russa de 1917”.

Grosso modo, pode se dizer que estavam inseridas temáticas como a Crítica à Guerra do Vietnã e revolta após a morte do Pastor estadunidense Martin Luther King Jr, nos Estados Unidos. Luta contra ditadura na América Latina e a insatisfação com  o regime soviético na então Tchecoslováquia.

Além disto, o pós Guerra,  a Guerra Fria, a Crise no Oriente Médio e a Corrida Armamentista ajudavam a conformar aqueles anos como os anos extremamente complicados

O General com o apoio do Exército reagiu fortemente. Dissolveu a Assembleia para o mês seguinte num pleito que lhe manteria no poder

Mulheres participam ativamente da manifestação

Não faltaram marchas pela família que, com  medo de uma possível ascensão socialista, manifestaram-se com cartazes de apoio ao General Charles de Gaulle dizendo “Cohh-Bendit – aluno que iniciou as manifestações –  Vá pra casa”.

Infográfico da Escalada dos Protestos

A final o General caiu e, embora alguns acreditem que não tenha sido por ação direta dos protestos, o fato é que sua saída deu fim a décadas no poder e embates com socialistas e comunistas, em França, durante a sua 5ª República.

 

Muitos intelectuais não conseguiram definir com precisão o que foi maio de 68 como foi o caso de Jean-Paul Sartre que confessou mais tarde não ter entendido “o que desejavam aqueles jovens”, mas uma coisa, pelo menos para mim, fica muito claro, aqueles jovens haviam sido movidos por um forte desejo de mudança. Posto que os anos 60 tenham sido anos extremamente agitados, havia espaço para manifestações sinceras que, embora irradiassem em várias direções, compunham o mesmo tema: um desejo de mudanças profundas nas questões sociais. Eram vozes dissonantes de estudantes, mulheres, soldados, negros, trabalhadores, campesinos, todos num mesmo turbilhão complexo e paradoxal dos rumos da história.

Aqueles jovens queriam de fato mudar o mundo e transformar o estado de coisas vigentes.

Ao fim do movimento que mudou a forma de se protestar pelo mundo, o movimento que teve seus excessos, suas ilusões  e lutas  incentivou, em muitos lugares do mundo a crítica coletiva que desafiava o  status quo, nascida da escrita de Herbert Marcuse (19 de julho de 1898 a 29 de julho de 1979) que criticava a sociedade industrial “homem unidimensional” que lançava o homo sapiens no mundo consumo.

As universidades também mudaram. Aquelas que antes eram os polos de irradiação de protestos transformaram-se, ao longo dos tempos, cada vez mais em lugares menos afeitos a protestos e reivindicações. Pode-se dizer também que aqueles que não querem a mudança, sempre marcham em prol da manutenção dos seus privilégios. Tudo o que eles querem é que os manifestantes esqueçam tudo, como uma velha piada ruim, retornem para suas casas e deixem o trânsito das coisas voltar a fluir normalmente, como se fosse um dia normal, coisa que aquele dia, 1º de maio de 1968, jamais seria.

 

Por: Prof. Júlio César Medeiros das da Silva Pereira

Dr. em Hist. Contemporânea da UFF/Infes.

 

Filme: Hair de Milos Formam, 1979.

Hobsbawm, Eric  Era dos Extremos, Companhia das Letras, 2008.

Maio de 68 em Paris em: www.scielo.br/pdf/ts/v10n2/v10n2a06

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