Ontem, dia 15/01/18, Daniel Kleven diretor do Betlheem  College & Seminary  publicou  um artigo no site norte-americano Desiring God, que, particularmente me chamou muito a atenção. O artigo intitula-se “Proviedence Is no Excuse: Exposing a Reformed Wite Supremacist onde  ele abordou a vida e os ensinamentos de Robert Dabney (1820-1898), um teólogo reformado do seu tempo – e um defensor da  escravidão e da supremacia branca.  Robert Dabney Justificava o seu racismo defendendo que a“providência divina”, era a  subjugação do povo africano.

 Robert Lewis Dabney (1820-1898) foi considerado um dos maiores professores de teologia nos Estados Unidos do seu tempo. Ele era admirado por  Teólogos reformados influentes como Hodge, Shedd, Warfield, Bavinck e Barth. Dabney era um calvinista que cria nos cinco pontos da teologia reformada que via a supremacia de Deus em todas as coisas. Porém sua visão da soberania de Deus, descambou para uma doutrina de uma “providência” quer servia, ao fim e ao cabo, para reforçar a ideia da  supremacia racial.

O argumento que ele usava, era muito perspicaz, ele propalava que, mesmo que os homens fossem naturalmente iguais, isto não equivaleria a dizer que eles seriam iguais em direitos universais. Mas pelo contrário, a lei deveria privá-los de tais direitos posto que eram incapazes de auto conduzirem as suas vidas, de fazer escolhas certas, de viverem e uma sociedade.

Seu pensamento culminou no texto que escreveu em 1867  intitulado: A Defense of Virginia and the South.  em que ele defende que a retirada dos africanos de África e o seu translado para os Estados Unidos para serem escravizados fora obra da Divina Providencia, o melhor  que poderia ter ocorrido aos africanos.

Ao fim da Guerra de Secessão, o reverendo Dabney fez uma longa defesa da escravidão num desejo premente de que as coisas voltassem ao estado anterior. Ao escrever uma serie de artigos sobre o tema, atacou fortemente a ideia de uma educação universal. Para ele era um absurdo a suposição de que negros pudessem aprender a ler ou estar em pé de igualdade com os brancos. Em um dos textos ele assim vocifera:

“he system supposes and fosters a universal discontent with the allotments of Providence and the inevitable gradations of rank, possessions, and privilege. It is too obvious to need many words, that this temper is anti-Christian; the Bible, in its whole tone inculcates the opposite spirit of modest contentment with our sphere, and directs the honorable aspiration of the good man to the faithful performance of its duties, rather than to the ambitious purpose to get out of it and above it.”

Como se vê, Dabney acreditava que a Bíblia dava suporte para a manutenção de uma sociedade hierarquizada em direitos e cheia de privilégios que, dados por Deus,  deveriam ser concedidos aos brancos.

Robert Lewis Dabney

Não demorou muito e suas ideias afetaram o campo eclesiástico e quando as igrejas do Sul se reuniram para discutir se homens “de cor” poderiam assumir cargos eclesiásticos,  Robert Dabney vez um discurso apaixonado contrário a tal concessão; defendeu que o homem não deve interferir no que Deus havia criado, pois fora o próprio Deus quem criara homens diferentes, brancos e negros e não o homem, isto era obra divina. Tocar nisto, ou seja, quebrar a hierarquia e a supremacia dos brancos seria ir contra Deus! deveria-se se manter as ordens naturais das coisas.

O autor do artigo, lamenta que os trabalhos de Dabney, seus textos e livros ainda estejam sendo usados nos seminários americanos e isto sem ressalvas ou notas de rodapés. “Não podemos fechar os olhos aos pecados de Dabney” diz o autor com muita precisão.

inclusive, ressalto eu e não Kleven, a lamentável declaração do presidente americano, Donald Trump,  sobre os países do continente africano. Por aí pode se mensurar como as ideias de Dabney ainda estão enraizadas na sociedade africana.

De fato, repito, o autor do artigo, que comento aqui,  teve muita coragem em trazer à luz uma critica profunda à teologia ensinada dentro da igreja Reformada. Daniel Kleven ao fazer este mea-culpa,  direciona o seu olhar para dentro do seio da própria igreja, para tentar pensar como a Teologia Reformada foi usada para manter o preconceito e reforçar a discriminação racial, mostrando que os templos cristãos não estavam isentos diante dos horrores do Sistema Escravista que transformou o mundo e sangrou o continente africano.

Seria bom que os nossos pastores seguissem os mesmos exemplos e pudessem olhar para dentro de nossas igrejas e verem como ainda é forte o racismo, no Brasil de hoje. Deixarmos de criticar tanto o mundo e pensarmos o quanto nós estamos influenciando negativamente o mundo, e não transformando-o.

Com certeza, não foi apenas a Teologia Reformada Norte americana que reforçou ou incentivou o racismo. Uma leitura enviesada dos textos sagrados deram margem para o preconceito em todas as sociedades modernas, inclusive no Brasil.

A conclusão que podemos tirar disto é que o conhecimento de Deus e dos seus mandamentos não nos impede de sermos tão pecadores, ou mais do que aqueles que não o conhecem. a segunda é  que a Teologia, sem uma reflexão social é incapaz, por só de que possamos viver como Deus quer que vivamos.

Felizmente, em 15/01/1929 nascia, em Atlanta, Martin Luther King Jr. aquele que viria a ser o pastor batista afro-americano que viria lutar contra tudo o que se dizia e pregava sobre um Deus racista. É bom saber que Martin é bem mais conhecido, lembrado e celebrado que o Rev.  Dabney, mas para o bem da História, esta última espécie de gente jamais poderão ser esquecidas, principalmente porque sua ideias maléficas ainda permanecem por aí.

By Júlio César Medeiros

Link do artigo na íntegra:

https://www.desiringgod.org/articles/providence-is-no-excuse

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5 Replies to “A providência não pode ser uma desculpa para Escravidão”

  1. É lamentável, que ainda hoje, exista esse tipo de pensamento racista, mesquinho, preconceituoso, bitolado. A sociedade ainda não entendeu que esse tipo pessoa manipuladora, perversa, egocêntrica na verdade nunca entendeu o que é Deus, não sabe o que é amor, compaixão, cuidado, delicadeza, esperança. Espero que o Criador conceda a oportunidade de pessoas como essa mudem e se arrependam dessa coisas, e busquem em Deus frutos dignos de arrendamento!!!

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